O paradoxo Maria

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Uma das coisas fundamentais para se tentar entender o ser humano é: observá-lo. É observando que podemos notar suas feições, reações e trejeitos, além de ouvir e interpretar palavras e atitudes. Todos observam, mais ou menos, dependendo da sensibilidade e personalidade.

Perdoem-me os radicais da cultura e hipócritas em geral, mas um dos melhores exercícios de observação da alma humana é – ok, pode me xingar – o Big Brother. Sei que o controverso programa tem legiões de fãs e ferozes críticos. Não quero julgar nada. Talvez você pague o pay-per-view todo ano ou leia apenas Shakespeare, mas muitos acompanham “mais ou menos” o BBB todo ano.

Afinal, é fácil. Nem precisa esforço ou dedicação. O programa é assunto diário de folhetins televisivos, nos portais da internet, jornais e revistas e até em canais rivais. Mesmo que você não acompanhe, acaba sabendo quem foi eliminado, o líder, bem como os heróis e os “malas” de cada edição. E, uma hora, a curiosidade… ahhh, a curiosidade… sabe?

E de tanta curiosidade acabei acompanhando atentamente as últimas 3 ou 4 edições. Rendi-me ao sistema, confesso. Mas, acredite (eu, pelo menos, me engano), o meu real objetivo não é observar os participantes. Pelo contrário. Gosto de observar a reação do “povo” perante os participantes e suas atitudes. E isso é incrível.

Os estereótipos estão sempre sendo colocados à prova. O clamor público demonstra isso. Basta ler qualquer fórum na internet durante o programa. E não tem jeito: por mais que nos esforcemos e neguemos isto, 99% (me incluo) temos pré-conceitos. Não no sentido pejorativo da palavra, mas sim uma pré-idealização das pessoas através de seu visual (beleza, postura, gestual, jeito de falar etc). E o que poderia ser melhorar para reforçar uma “tese” que uma “pesquisa apurada em laboratório” como o BBB?

E lá vamos nós todos vendo a loira gostosa (que obviamente é burra); o gostosão sarado e vaidoso que fulmina todas as periguetes com seu olhar matador (e conteúdo gasoso), o homossexual (com suas devidas variantes “gay enrustido”, “discreto”, “escrachado” e “bichalouca mesmo”), a moça simples de família humilde do interior do Jorotó do Sul (que precisa taaanto do prêmio pra quitar os bois do rancho da família); o garotão dixxxxxxcolado e iraaaaaado (mas que, evidente, há de ser imaturo e descerebrado); o bicho-grilo maluco beleza (que é de paz, mas com certeza é um drogado), a mocinha feiosinha (que deve ser esperta, porque ela “TEM que ter ALGO de bom”), entre outros. Grande parte acertamos em cheio, por sinal.

Em 11 edições do BBB, poucos conseguiram fugir do estereótipo prévio ao longo do “convívio” com o espectador. Poucos mostraram que “NÃO… eu não era o que você pensava.” Pessoas que marcam. O ex BBB Alemão foi um, dos fáceis de lembrar. Ele “tinha” que ser um “gostosão cheio de hormônios e meio ogro”. Mas não. Ele era “delicado”. Ele foi inteligente. E, pasmem, ele controlou seus hormônios! Sensacional!

Já esse último BBB parecia tão sem graça… tão… “sem ninguém”! E eis que, de onde parecia que nada mais de interessante sairia, surge uma figura que foi ganhando corpo… aparecendo aos poucos… e que não, ao final, não será esquecida tão cedo. Maria.

A grande diferença… não é ELA, em si. Ela é gostosa. Bonita. Não é culta. Ou seja… ela é o estereótipo exagerado em si mesmo. NADA diferente, pois. E ela foi mostrando cada vez mais isso: gostosa e burra. Mas foi mostrando alegria… e parecia ser a pessoa que mais se divertia na casa.

Mas era apenas, ainda, uma gostosa desmiolada. Não brigava, não fazia cena, não fazia nada. Apenas “mariava” vez por outra. Em momento algum ela liderou qualquer pesquisa de preferência popular. Os bichos papões eram outros.

E eis que o imponderável acontece: o homem que ela tanto queria, não queria a moça. Imponderável? Ou TODAS as mulheres do mundo já passaram por isso?

Ela, como toda mulher “digna” faria, não se conformou com a situação. Jogou charme. Insinuou. Pediu. Ela começou a passar dos limites… e rastejou até o ponto de se humilhar por ele, inacessível e soberbo, a desprezá-la. E ela, mais de uma vez, repetiu o script. Conclusão fácil: mulher BURRA!

Ela ficou uns dias reclusa. E de repente… em um ato de coragem (ou desespero) ela ficou com o homem que a queria. Que era o “bom moço, médico, bonito e educado”, como sua mãe sempre lhe recomendou, mocinha! Pronto. E agora?

Bem… a máscara do mocinho soberbo caiu… ele também. E ela ganhou um aplauso de todas as mulheres libertas do país (e até das não libertas): “Isso mesmo, mocinha! O cara te esnobou, pisou em você? Não quis? Manda pro inferno e fica com quem te dá valor!”

E não é que a mocinha deu mesmo a volta por cima? Manteve seu inabalável humor, se divertiu horrores e ainda “pegou o príncipe encantado”. Transformou sua “burrice”, que era defeito, em graça. Seus defeitos viraram charme. Afinal.. eles eram tão… comuns!

Era tão fácil se identificar com ela, se não pelo corpo ou pelo cérebro, mas pelo menos pelas atitudes? Tentar lutar pela vida sem perder a alegria, ter defeitos e saber que os tem, ter virtudes e usá-las a seu favor, lutar por algo que se quer, cair, superar, renascer e, enfim, conquistar a glória?

Quem mulher não quer isso?

E que mulher não É isso?

Pela primeira vez o BBB teve uma mulher vencendo que não fosse por misericórdia. Maria ganhou porque, mesmo estereotipada, convenceu o público a “ver as coisas do lado dela”. Tentar entender seus votos atrapalhados e absurdos. Sua falta de noção. E de tanto vê-la de perto acabou se encantando e vendo que… ao invés de uma gostosa burra… no fundo… ela era tão… normal! Igualzinha você.

Virtudes e defeitos pessoais à parte… Igualzinho, em essência, a todas as mulheres, esse bichinho curioso com alma de fênix.

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4 Respostas to “O paradoxo Maria”

  1. Juan Says:

    Cara, que texto lindo e literário (é sério). Parabéns!

    • hinvisivel Says:

      Puxa… muito obrigado, Juan! Fico feliz que tenha gostado.
      Sinta-se sempre à vontade para comentar e espero que volte aqui muitas vezes. A casa é sua… =)

  2. Aline Says:

    Adorei… Que bom que “reativou” o blog… beijos

Obrigado pelo seu comentário! Volte sempre... =)

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